Quando eu era menina a Páscoa tinha para mim um significado especial. Não que hoje não tenha, mas quando a gente cresce as coisas mudam um pouco. Crianças são puras, enxergam os pequenos detalhes com magia, mas hoje meus olhos não me permitem ver tudo com tanta inocência.
Páscoa, independente de religiosidade significa passagem, mudança para algo melhor. Mas de “passagem” mesmo eu nada vejo. As pessoas continuam as mesmas, o mesmo comodismo, os mesmos sorrisos falsos. Fazem discursos lindos, em determinadas datas como essa, que não passam de palavras da boca para fora; a emoção dura apenas um momento e nos dias seguintes tudo volta a ser como sempre foi.
As coisas não mudam porque é Páscoa, muito menos as pessoas.
Ontem liguei minha TV e o que tanto vejo? Cara que arranca braço de ciclista, mulher que mata uma criança sufocada, bêbado que atropela e mata um adolescente de 15 anos... Eu já deveria estar acostumada com essas coisas, mas eu não consigo. Me dói pensar nas pessoas que morrem todos os dias por irresponsabilidade e maldade alheia.
Estou farta dos mesmos discursos políticos, do mesmo blá, blá, blá de sempre, das crianças que não sabem o que é fazer uma refeição direito ou ter o prazer de ter um ovo de Páscoa, enquanto as autoridades ganham mais do que deveriam para sambar na nossa cara. Em vez de proteger eles nos roubam usando o dinheiro dos impostos arrecadados com o trabalho suado daqueles que eles julgam tão sem importância.
Estou farta desse povo acomodado e conformista, que briga por futebol, morre pelo seu time, mas não se mobiliza para lutar pelos nossos direitos.
Estou farta desse povo que se volta para o próprio umbigo, que acha que desde que ele esteja bem o resto é o resto, mas depois quando algo atinge a sua família hipocritamente fica clamando por justiça.
É muita gente se conformando com migalhas. Reclamando muito, mas se contentando com pouco. O doce da Páscoa está com gosto de fel.
Pensar nisso fere minha alma. Talvez eu seja idiota demais por me martirizar com essas coisas quando ninguém mais parece se preocupar com isso. Talvez eu seja idiota de chorar quando leio e assisto essas notícias. Mas prefiro ser essa idiota do que agir como cega e surda, sentar na frente do meu computador e fingir que nada está acontecendo, fingir que na Páscoa todos os problemas do mundo não existem... Por que eles ainda estão lá.
O que eu desejo é mais do que justiça, eu quero de volta o amor ao próximo que parece ter se perdido em meio a tanta estupidez humana.
Homens, onde está a verdadeira Páscoa?
“Vai onde há a dor, e cura!
Vai onde não há amor, e ama!
Vai onde há a dor, e alegra!
Vai onde não há amor, transforma!”
(Deus, onde estás? - Palavrantiga)
Esse texto além de um desabafo foi escrito para o concurso cultural do blog Garota it "Quero meu chocolate em livros" em parceria com o Cuponation.